
O presente trabalho é uma busca pela análise da possibilidade metodológica no tocante ao ensino de Filosofia, particularmente no que se refere à leitura de textos clássicos da história da filosofia no Ensino Médio brasileiro e, ao mesmo tempo, uma amostra do que foi realizado em escolas da rede pública de ensino, durante os anos de 2010 e 2011, em prol de tal causa. Nesses dois anos três acadêmicos do Curso de Licenciatura Plena em Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria participaram do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência, realizando oficinas onde o foco principal era, a partir da leitura dos clássicos da Filosofia, sua compreensão, interpretação, análise e reflexão, fazer com que os alunos produzissem uma escrita que, de alguma forma, deveria ser filosófica.
As práticas de ensino em qualquer área do saber na educação básica brasileira estão longe de ser uma tarefa fácil de ser executada e no caso específico da Filosofia não é diferente, principalmente se considerarmos o fato de que essa esteve longe dos currículos escolares obrigatórios por mais de duas décadas e, apenas em 2008, sua obrigatoriedade foi conquistada através d a promulgação da Lei 11º 684.
Neste contexto cabe ao professor de Filosofia, o papel de estimular, através do exercício de leitura, reflexão e domínio da escrita, a entrada nesse caminho para que os alunos não se percam na aventura da descoberta de si como seres autônomos. Desafio posto, aliás, aos próprios professores, enquanto leitores, produtores e adaptadores de textos.
No rol das disciplinas do Ensino Médio, a Filosofia, bem como outras disciplinas, defronta-se com a apatia dos alunos em relação ao hábito da leitura. Ora, não seria possível o alcance de uma competência sem o desenvolvimento de uma habilidade, no âmbito de qualquer disciplina. Portanto, a aquisição do referido hábito seria uma tarefa posta aos próprios alunos, e aos professores, instigada pela disciplina em questão, certamente a partir daquilo que corresponde ao seu conteúdo específico, ou seja, o próprio texto filosófico. Nesse ponto, a Filosofia apresenta um diferencial se comparada às outras disciplinas, que é a relação que a mesma mantém com sua história, sempre retornando aos seus textos clássicos para descobrir sua identidade, atualidade e sentido. Disso ela não poderia prescindir, pois, é através da leitura dos textos filosóficos que se dá o próprio fazer filosófico.
Assim, analisar a proposta de leitura e escrita de textos filosóficos como possibilidade na aula de Filosofia, significa dizer que a referida disciplina tem um conteúdo próprio e que seu conteúdo muitas vezes se confunde com sua própria metodologia. Ler filosoficamente implicaria em filosofar. Para isso, será necessário habilmente mostrar aos estudantes do Ensino Médio a importância da Filosofia e dos temas a ela concernentes.
Em nossa proposta de trabalho, a busca pela análise da possibilidade metodológica no tocante ao ensino de Filosofia, particularmente no que se refere à leitura de textos filosóficos, caminha no sentido de aprofundar o tema, verificando o posicionamento de alguns autores consagrados que se debruçaram e se debruçam sobre as principais problemáticas dele originadas. Daí a necessidade, para fundamentar tal iniciativa, de uma pesquisa de cunho bibliográfico, de forma a permitir um diálogo com o que autores escreveram, e escrevem, sobre o tema corrente. Sabe-se que a aprendizagem em Filosofia é pautada por atividades que priorizam a leitura e a escrita, pois essas podem, de forma significativa, proporcionar o exercício da reflexão e o desenvolvimento da capacidade de pensar.
Ao iniciar nossa trajetória acadêmica em um Curso de Licenciatura Plena em Filosofia, nos deparamos com inúmeros obstáculos. O principal deles, talvez, seja o fato de muitas vezes ocorrer um ‘estranhamento’ quando se entra em contato com a linguagem e a pesquisa filosófica, exigindo e pressupondo que o mesmo tem que atribuir sentido e significado no trabalho de leitura e escrita de textos, pois os textos servem de suporte didático-metodológico em Filosofia. Deste modo, ensinar a ler e a escrever filosoficamente é potencializar habilidades, tais como compreender, interpretar e escrever os diversos gêneros de textos.
Sabe-se que a leitura e a escrita fazem parte do cotidiano. Lê-se para ampliar os limites do próprio conhecimento, para obter informações, das mais simples às mais complexas, para buscar diversão, descontração, lazer e cultura. Neste sentido, não há restrição de ambientes, pois, geralmente, ela surge no lar e tem o seu prolongamento na escola e/ou no meio profissional. É necessário ler. Ler é transformar a escrita em fala. Ler é decodificar mensagens. Ler é extrair novas ideias. Ler é produzir sentido. Ler é interagir à medida que o ato de ler não se dá linearmente, mas é um processo contínuo que mexe com a tranquilidade do leitor exigindo um constante ir e vir no(s) texto(s). É uma operação mental complexa, marcada por tensões, porque envolve ativamente as habilidades e a cognição do leitor.
Ler não é fácil, exige esforço mental e físico e, como tudo, dá trabalho. Percebe-se que muitas vezes é mais fácil abandonar tal esforço. Portanto, aprender a ler não é só uma das maiores experimentações da vida escolar e acadêmica, mas também vivência única para todo ser humano. Ao exercer a leitura, abrimos a possibilidade de adquirir conhecimentos, desenvolver raciocínios, participar ativamente da vida social, ampliar as concepções acerca do mundo, do ‘outro’ e de si mesmo.
A leitura, enquanto meio de uma prática que pressupõe o diálogo com a tradição filosófica, instiga o desenvolvimento de habilidades, como a escrita, pois há uma implicação proporcionada por tal diálogo em que a mesma facilita o processo de ensino e aprendizagem. Neste sentido, tem-se problematizado de que modo tais atividades estão sendo desenvolvidas, e se têm proporcionado efetivamente uma dimensão de autonomia, criatividade e criação do próprio saber filosófico mediante a produção de textos.
Ressaltamos que, quando falamos em processos de leitura, estamos nos referindo a um processo que pressupõe reflexão, interpretação e apropriação do que se lê. É através do acontecimento efetivo desse processo que evitaremos a reprodução de dizeres que não foram interpretados significativamente e que são reproduzidos porque ‘alguém’ assim os escreveu. Apenas nessa perspectiva, colabora-se para o desenvolvimento de uma consciência crítica no aluno, uma vez que não nos parece possível formar sujeitos críticos e reflexivos, se a ação educativa primar pela submissão e passividade diante do conhecimento posto.
Contemporaneamente, a leitura e a escrita têm sido consideradas imprescindíveis como formas de comunicação e de sobrevivência na sociedade, mesmo que, em outras épocas, estas duas formas de comunicação tenham sido percebidas apenas como restritas àqueles que tinham prestígio e riqueza. Em nossa sociedade, a escrita é percebida como reflexo do saber e um dos principais caminhos para a realização profissional, apresentando-se como um aspecto significativo da emancipação do sujeito. O ato de ler, por sua vez, relaciona o sujeito com o mundo que o cerca. De algum modo, afirmou-se que ler e escrever são atividades que se complementam no processo de aquisição do conhecimento, de criação e de descoberta do mundo. Ao ler, o leitor decodifica os saberes e, ao escrever, ele realiza a codificação de novos conhecimentos. Por esta razão a experiência da leitura coloca o sujeito em um processo de aprendizagem que percorre o saber e o não saber.
Das muitas dificuldades apresentadas no ensino, notadamente no Ensino Médio brasileiro, estampam- se as da leitura e da escrita. Ler e escrever tornaram-se as atividades nas quais, talvez, os estudantes menos se envolvam. Daí a preocupação de muitos professores, em todas as disciplinas, em despertarem para isso. Ao experienciar a leitura e escrita filosófica, o aluno- leitor-escritor executa um ato de compreender o seu mundo. De fato, o propósito básico de qualquer leitura é a apreensão do que se plasmou através de experiências objetivas ou subjetivas, a concretização de significados fixados no exercício da escrita, ou seja, pretende-se alcançar a compreensão dos horizontes inscritos por um determinado autor, numa determinada obra filosófica.
No mundo contemporâneo, de acordo com a imposição de um ritmo frenético às pessoas, a leitura parece ter se tornado uma atividade em desuso. A agitação experimentada e comprovada pelo pulsante deslocamento vertical e horizontal do nosso mundo, ditando o estilo de vida das pessoas, parece não dar trégua. Nesse mundo que não para, é possível o cultivo do hábito da leitura? Por que ler textos filosóficos? Como ler os textos filosóficos? E que textos ler? Podemos elencar dois procedimentos básicos importantes para uma leitura filosófica: primeiro, o conhecimento filosófico pressupõe uma ‘iniciação filosófica’ mediante a leitura de textos filosóficos e do ‘repensar estes textos’; em segundo, essa ‘iniciação filosófica’ se desenvolve a partir de e através da visitação constante aos textos filosóficos. A iniciação filosófica se dá paulatinamente, com a apreensão não imediata do pensamento do autor e de seu conteúdo filosófico. Daí a necessidade de exercitar a paciência, lendo e relendo os textos quantas vezes forem necessárias.
Não basta ler, precisa-se haver análise, discussão e interpretação do que se lê para dar sentido. De acordo com Folscheid e Wünenburger, em seu livro intitulado Metodologia Filosófica (2006), a aprendizagem da leitura e da escrita é comparada com a seguinte analogia: não há como se aprender a nadar fora d’água. Se o sujeito aprender a ‘teoria da natação’, deitado em um banco e simulando todos os movimentos do ato de nadar, quando estiver dentro d’água, terá que ‘reconstruir’ tudo o que aprendeu do ponto de vista estritamente teórico, e é quase certo que perceberá que todo o seu treinamento ‘teórico’ deveria ter sido feito dentro d’água e não no banco. Analogamente, ler e escrever em filosofia devem ser considerados como partes de um único e mesmo processo: refletir filosoficamente e escrever filosoficamente, ‘concretizando’ a reflexão filosófica no ato mesmo de escrever e adaptando as sugestões descritas acima às suas necessidades e possibilidades pessoais. Ou seja, os autores afirmam que “Como não há método milagroso em filosofia, é preciso trabalhar em dois planos ao mesmo tempo, segundo a lógica da reflexão teórica, que decompõe artificialmente, e segundo a da imersão prática, (...) cada uma corrigindo a outra” (FOLSCHEID; WÜNENBURGER, 1999, p. 59).
Além disso, não é proveitoso que a filosofia seja ensinada sem que os alunos leiam o que os filósofos já escreveram, em relação a isso GALLO & KOHAN (2000, p. 194) afirmam que:
a experiência de pensamento filosófica traz em si a marca da necessária remissão à História da Filosofia. Não se pensa filosoficamente sem o recurso a uma história de mais de dois mil e quinhentos anos. Se a criação conceitual deve ser feita sobre o vivido, ela não pode deixar de lado as reflexões já produzidas sobre ele. Mas a remissão à História da Filosofia não pode significar um retorno ao mesmo: essa remissão deve ser essencialmente crítica e criativa, e é aqui que a Filosofia se faz multiplicidade. Retomar um conceito é problematizá-lo, recriá-lo, transformá-lo de acordo com nossas necessidades, torná-lo outro. O diálogo com a História da Filosofia é uma fonte de desvio, de pensar o novo, repensando o já dado e pensado.
Partindo dessa análise de possibilidade de ensino de Filosofia referente à leitura de textos clássicos da história da filosofia é que nos inserimos no Ensino Médio com objetivo de melhorar a qualidade do ensino na rede pública de educação, promovendo um encontro de saberes entre a escola e a universidade, entre o professor titular da escola, os acadêmicos, os alunos e a comunidade escolar. As práticas de leitura e escrita que se desenvolvem numa instituição escolar não são eventos neutros: estão relacionadas à história da instituição, a sua concepção educacional, às noções dos sujeitos que a realizam e a certas visões pedagógicas.
A relação com o ato de ler e de escrever diz algo sobre a concepção de ser humano que é mais forte na instituição. O que os alunos e professores leem e escrevem, o que trazem de fora para ler, o que se recusam a copiar, o que desperta seus interesses, etc. Tudo isso revela também um determinado tipo de relação com seus mestres, com o ambiente escolar e uma forma de interação entre sua própria subjetividade e as situações de leitura e escrita filosóficas. A prática pedagógica é estruturada a partir dos quadros de referência ideológicos, sociais e morais de todos os envolvidos na dinâmica escolar, e tais quadros se cruzam com todo o universo simbólico cultural que dá sentido a atitudes e comportamentos. Portanto, algumas questões do cotidiano da escola são apresentadas antes de falar nas práticas de leitura e escrita.
O propósito principal de investigação sobre a presença dos saberes filosóficos na escola básica consiste em apreender os traços de singularidade e compor, com eles, mapas e rotas não evidentes de tal presença, entre aquilo que é visível e enunciado e do que não aparece e ainda não está dito. Considera-se que no âmbito escolar desenvolve-se um tipo de educação compreendida como dispositivo de poder onde o sistema educacional é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem. A leitura e escrita filosófica como uma das modalidades de experiência cultural, entre outras, que deveriam ter também na escola o seu lugar de realização e efetivação.
A interpretação continua o trabalho da compreensão, considerando não apenas as alternativas que o texto desenvolve, mas também aquelas que ele omite. Texto compreendido nunca é apenas lido, é interlocucionado ativamente, é “produzido”, onde o interprete é sempre o “coautor” que está produzindo um texto, no sentido de que está reconstruindo um problema.
É preciso mostrar que se a relação do professor de filosofia com a leitura e escrita filosófica, demonstra o que todos sabemos: que há diferença entre ver e olhar, ouvir e escutar. Ler não é apenas passar os olhos por algo escrito, não é fazer a versão oral de um escrito. Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita filosófica, significa poder ter acesso a estas escritas filosóficas, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é.
O texto e a escrita filosófica provocam questionamentos, explorações e respostas de natureza diferente, mas o ato de ler, em qualquer caso, é o meio de interrogar a escrita e não tolera a separação de nenhum de seus aspectos. Em nossa formação, como futuros professores de Filosofia temos que, além de nossa formação acadêmica, priorizar o conhecimento sobre escritos utilizados pelos alunos no ensino médio, bem como a observação das estratégias que os jovens utilizam, quer diante de programas de televisão, dos textos da rua, da publicidade, quer diante de jornais e revistas, das histórias em quadrinhos, dos manuais de instrução, dos documentários, do teatro, do cinema, dos álbuns, da ficção e até de um aparelho de celular, etc. Por certo, que o professor de Filosofia do ensino médio, deverá se posicionar de tal modo que fique claro que a tarefa da leitura e escrita filosófica como um todo, não é uma tarefa exclusiva da escola.
É, por isso, que a leitura e escrita filosófica devem passar para além dos muros das escolas, devem contatar e de certa forma contagiar os pais dos alunos, as bibliotecas da cidade, a comunidade escolar, estabelecendo assim, um intercâmbio entre as ações de informação e formação filosófica. Tendo em vista as dificuldades de leitura e escrita, gerais e filosóficas, três bolsistas que tinham em comum o anseio de pesquisar sobre o tema decidiram trabalhar com textos clássicos de filosofia e levar para sala de aula algo que deveria ser um precedente no ensino da disciplina. O texto clássico é o principal instrumento de trabalho quando nos remetemos ao ensino e à aprendizagem de filosofia, mas na maioria das vezes ele não é apresentado aos alunos e alunas das escolas de ensino médio.
No processo de desenvolvimento das atividades de leitura e escrita propostas trabalhamos com fragmentos de textos filosóficos, tendo em vista a necessidade de aproximar os alunos e alunas aos textos clássicos da filosofia de forma complementar as atividades realizadas em sala de aula pela professora titular da disciplina. Os fragmentos a trabalhados foram escolhidos em comum acordo entre a professora da escola e os responsáveis pelas atividades.
Dessa forma planejamos oficinas de leitura e escrita com o objetivo de minimizar os problemas em relação à leitura e escrita dos alunos e alunas, além de instrumentalizá-los para que tenham autonomia diante da filosofia.
Para a realização das atividades parte-se da interação com o cotidiano do aluno nas suas relações de pertencimento, a partir de diálogos transversais. Tendo como objetivo criar condições que venham a garantir a autonomia dos alunos na leitura e produção textual, ressignificando a importância do ato de ler e escrever filosoficamente. Sendo assim durante o primeiro semestre de 2011, realizou-se no Colégio Estadual Professora Edna May Cardoso situado na cidade de Santa Maria-RS, onze oficinas com as três turmas do Ensino Médio, nos turnos da manhã e da noite, sendo que dessas, três foram sobre o conceito de felicidade em Epicuro e as demais trataram temas filosóficos complementares, como por exemplo: mitologia, religiosidade, liberdade e consumismo.
A metodologia utilizada pauta-se pelo referencial teórico de Renata Aspis e Silvio Gallo (2009), conforme os autores o ensino de filosofia é delineado por componentes que abrangem a leitura filosófica, a história da filosofia e a escrita filosófica. A partir desta proposta, buscou-se a implementação de oficinas que oportunizassem a percepção criativa dos alunos sobre as significações das figuras textuais presentes na escrita dos autores estudados, aproximando o saber filosófico do cotidiano vivenciado por eles no interior da escola, isto sem prescindir da valorização e da releitura dos saberes historicamente acumulados pela tradição filosófica. Em linhas gerais, as atividades foram desenvolvidas segundo a abordagem metodológica com base nos quatro momentos pedagógicos sugeridos por Silvio Gallo (2007); para o qual a aula de filosofia no Ensino Médio deve assumir a dimensão de oficina de conceitos, para que se torne possível produzir um ambiente de criação e experimentação conceitual, considerando o cotidiano e subjetividade dos alunos.
O trabalho realizado pelo grupo de trabalho Leitura e Escrita se encontra em fase de finalização e os resultados obtidos até o momento são parciais. É importante destacar que a realização de tais atividades mostra-se realmente necessária, pois o contato que os alunos tiveram com textos clássicos da filosofia era pouco ou, em alguns casos, inexistente na sala de aula, fato comprovado mediante pesquisa de campo nas duas escolas vinculadas ao projeto através de conversas informais com os alunos e de questionários mistos, que visavam à obtenção de um diagnóstico da relação do aluno com textos (filosóficos ou não). As experiências tidas até o momento mostraram que é possível que se trabalhe com o texto filosófico em sala de aula.
Com a presente proposta de trabalho espera-se uma efetiva contribuição para a ampliação dos conhecimentos e das possibilidades metodológicas para a aula de Filosofia. Aliás, a referida disciplina, apesar de passar por um momento favorável pelo fato de estar retornando ao currículo obrigatório do Ensino Médio, carece de metodologias apropriadas ao seu ensino na educação básica. Juntando-se a isso, algo ainda mais danoso ao seu desenvolvimento é o fato de muitas vezes a disciplina ser ministrada por quem não tem o devido respaldo acadêmico para ensiná-la e, portanto, acha que pode fazê-lo de qualquer forma. Diante de certas “resistências” de saída da condição de admiradores de sombras, por parte dos educandos, geralmente buscam-se caminhos mais “fáceis” e menos tortuosos. Não vislumbram que educar para a inteligibilidade, contribuir para a constituição de uma retórica, de elementos que permitam o desenvolvimento de seres discursivos, necessariamente passa por conduzir os alunos a descobrir encadeamentos, os elos que estão nos discursos elaborados deixados como legados pela História da Filosofia.
Evita-se, assim, que as aulas sejam preenchidas pelo discurso vazio (geralmente do professor), por simulacros de reflexão, ou então que se tornem apenas um lugar para se ‘discutir’, de ‘criticar’ etc. Pois, educar para a inteligibilidade significa reafirmar que a crítica não vem antes das condições que a tornam possível. Portanto, mínimo no ensino de filosofia não é, certamente, este ou aquele conjunto de tópicos, problemas ou partes da filosofia. Não é, também, uma coleção de conceitos, textos ou doutrinas. O que interessa é o foco do trabalho com os alunos: o que é preciso fazer para o desenvolvimento das condições de inteligibilidade?
Assim, contribuir com o aprimoramento do debate acerca das propostas de novas e mais efetivas metodologias de ensino da Filosofia, é atribuição dos próprios professores de Filosofia. Visualiza-se que uma metodologia para o ensino efetivo da referida disciplina deve priorizar o conteúdo inerente ao seu próprio conjunto e, portanto, jamais deve abrir mão do exercício do filosofar que deverá ter como ponto de partida a leitura do próprio texto filosófico e, quando essa tornar-se hábito na escola básica, poderemos pensar em uma leitura filosófica de outros gêneros, pois como afirmado nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio (2006): “é imprescindível que ele tenha interiorizado um quadro mínimo de referências a partir da tradição filosófica, o que nos conduz a um programa de trabalho centrado primordialmente nos próprios textos dessa tradição, mesmo que não exclusivamente neles.”. Para ter lugar assegurado na escola, a Filosofia precisa se configurar como um saber elaborado, sistemático, erudito, isto é, como um conteúdo curricular específico, cuja socialização seja relevante para a produção da existência humana e para a vida em sociedade.
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